o pior lugar para se nascer mulher

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o pior lugar para se nascer mulher

Mensagempor Boris-D » 27 Dez 2007, 22:45

01/12/2007
No norte da Índia, o pior lugar para se nascer mulher

Amelia Gentleman
Em Machrihwa, na Índia

O nascimento de um menino é comemorado em Machrihwa com a compra de doces, que distribuídos com grande alegria entre os moradores da vila.

Já o nascimento de uma menina, na maioria dos casos, não é comemorado.

As mulheres nesta vila não gostam de falar sobre o assunto, mas muitas daquelas que têm filhas admitem rancorosamente que pior do que as dores do parto foi a tristeza que as acometeu ao saber que haviam dado a luz a uma menina.

Juganti Prasadi, 30, recorda-se do silêncio reprovador que tomou conta do quarto quando ela deu a luz à sua terceira filha. A sua sogra entregou-lhe a criança e disse-lhe secamente, "É uma menina, de novo", e foi embora.

"Não havia ninguém para me dar sequer um copo d'água", conta Prasad. "Ninguém se deu ao trabalho de olhar para mim ou de me alimentar porque a criança era do sexo feminino".

Enquanto estava deitada se recuperando, ela podia escutar os parentes na casa ao lado lamentando a calamidade. Algumas semanas depois, o marido expulsou Prasadi e as três filhas de casa.

Situado a cinco horas de viagem pelas mal conservadas estradas a partir de Lucknow, a capital do Estado nortista de Uttar Pradesh, o distrito de Shravasti é, segundo cálculos da Unicef, o pior lugar do mundo para se nascer mulher.

Em grandes áreas do norte rural da Índia, longe do rápido desenvolvimento que está acabando com posturas tradicionais em relação às mulheres nas cidades, o boom econômico da Índia é virtualmente invisível e as perspectivas para as meninas continuam bastante limitadas.

Em novembro, a Índia ficou em 114° lugar em uma pesquisa abrangendo 128 nações sobre desigualdade entre os sexos, feita pelo Fórum Econômico Mundial, tendo apresentado baixos índices de igualdade em educação, saúde e economia. A Unicef usou três parâmetros estatísticos - a idade com a qual as meninas se casaram, o índice de alfabetização feminina e a desigualdade entre o número de meninos e de meninas - para determinarem que não existe um lugar mais infeliz para uma menina nascer do que Shravasti.

Mas nada na aparência externa de Machrihwa, no norte de Shravasti, perto da fronteira com o Nepal, indica esse recorde triste.

A fumaça de fogões a lenha sobe em espirais a partir dos telhados de palha, e as meninas sentam-se com as mães, peneirando arroz à entrada das suas choupanas de estuque, em meio àquela paz característica das vilas nas quais ninguém possui carros. Aqui as famílias ganham a vida com a agricultura, sem contar com água corrente e eletricidade.

"Estamos impressionados com o que está acontecendo nas grandes cidades, mas existem estas áreas rurais remotas nas quais o desenvolvimento ainda não chegou de maneira alguma", diz Rekha Bezboruah, diretor da Ekatra, uma organização de defesa dos direitos das mulheres, com sede em Nova Déli.

A sensação de ambivalência das mulheres daqui em relação às suas filhas está enraizada no tradicional sistema indiano de casamento, que determina, primeiro, que as moças deixem as casas dos pais permanentemente no dia do casamento, indo para a residência da família do marido, e, segundo, que elas sejam acompanhadas por dotes vultuosos.

Reservadamente, as mulheres da vila explicam que o ressentimento das mães em relação às suas filhas recém-nascidas é o resultado de um difícil cálculo financeiro.

"O mínimo é 25 mil rupias por dote, que inclui o preço de uma bicicleta que é dada ao noivo, bem como diversos ornamentos. E além disso há o próprio custo do casamento, que representa mais 20 mil rupias. Então, já na primeira vez que olha para a criança, tais pensamentos passam pela cabeça da mãe", explica Shanta Devi, 35, mãe de duas meninas e dois meninos.

O total de 45 mil rupias, o equivalente a US$ 1.500, é uma fortuna para trabalhadores sem terra que ganham sem nenhuma regularidade salários de cerca de 30 rupias por dia. "A pessoa gosta de ter uma filha, mas gosta também de ter dinheiro", acrescenta ela.

A prática de dar e receber dotes é ilegal segundo a Constituição do país. Mas sucessivos governos daqui tiveram pouco sucesso em implementar a lei.

"Para nós o dote é o problema social básico", afirmou em uma entrevista Renuka Chowdhury, ministra do Desenvolvimento para Mulheres e Crianças. "No momento em que tem uma filha, a mulher sente que prejudicou a família".

Até mesmo nas cidades a preferência por filhos continua forte. Uma nova cultura de consumo ostentoso inflacionou os valores dos dotes, reduzindo ainda mais o entusiasmo pelas filhas entre as famílias de classe média.

Nas áreas urbanas, o preconceito tradicional assumiu uma forma moderna eficiente, com a chegada da tecnologia de ultra-som que permite que as mulheres evitem ter bebês do sexo feminino. A identificação do sexo da criança antes do nascimento é ilegal, sendo entretanto uma prática generalizada. Em toda a Índia, cerca de dez milhões de fetos do sexo feminino foram abortados nos últimos 20 anos, segundo um estudo publicado no ano passado no periódico britânico de medicina "Lancet".

"Encontramos fetos de meninas em sacos, flutuando em canais de esgoto", conta Chowdhury.

Em áreas rurais remotas, uma máquina capaz de determinar o sexo da criança antes do nascimento é um luxo do qual ninguém ouviu falar. Apesar da relutância das mulheres em dar a luz a meninas, a proporção entre o número de meninas e o de meninos neste distrito é mais elevado do que em áreas mais prósperas da Índia: 941 meninas para cada mil meninos no parto, número superior à média nacional de 927.

Aqui, o alto índice de analfabetismo e a baixa idade para o casamento são os fatores que fazem com que Shravasti seja o pior local do país para as meninas, segundo as classificações da Unicef, baseadas em dados dos censos de 2001.

A alguns casebres de distância de Shanta Devi, Santo, que não tem sobrenome, mora sozinha com a sua quinta filha em uma cabana feita de palha. A cabana não tem porta, e os cães da vila entram e saem. Dentro não há nenhum bem, com exceção de uma cama de cordas trançadas e algumas roupas dependuradas no teto. Ela também foi expulsa pelo marido duas semanas atrás, depois que deu a luz à quinta menina.

A terceira e a quarta filhas de Santo morreram ainda muito novas, de doenças aparentemente curáveis - uma foi vítima de sarampo, a outra de uma febre sem causa diagnosticada. Nenhuma das crianças foi levada até um médico.

"Sei que o meu marido me teria dado dinheiro para levar as crianças ao hospital caso fossem meninos", diz ela.

O assistente de saúde local, Hardayal Wishwakarma, que mora em uma vila vizinha, não demonstra surpresa. "Se uma garota adoece, os pais não se importam muito com tratamento médico. Mas se o doente for um garoto, eles são capazes de vender a casa para tratá-lo", diz Wishwakarma.

As duas filhas mais velhas de Santo que sobreviveram casaram-se quando tinham cerca de sete anos de idade, a fim de que a família fosse aliviada do custo de alimentá-las.

"O casamento é visto como o melhor seguro social nessas regiões nas quais não existem outras opções", afirma Rama Subrahmanian, uma especialista em políticas sociais da Unicef. Segundo estatísticas oficiais, a idade média com que as indianas se casaram entre 1996 e 2001 foi de 16 anos.

Embora existam programas governamentais no sentido de implantar a educação universal - meninas e meninos têm direito à educação gratuita e, teoricamente, precisam freqüentar a escola até os 14 anos de idade -, ela diz que o problema é que tais programas são muitas vezes mal implementados, especialmente nos Estados mais pobres no norte da Índia.

Nas paredes da escola da vila, uma imagem pintada de uma menina de rabo de cavalo sentada ao lado de um menino que tem à sua frente um grande lápis vermelho, declara: "Uma mulher educada é a luz da casa". Mas as matrículas contam uma história diferente. Embora o número de meninas e meninos matriculados seja quase igual no início, mais tarde a quantidade de meninas cai abruptamente quando os pais deixam de mandá-las para a escola depois que elas atingem a puberdade.

O baixo índice de alfabetização feminina aqui - 22,6% das mulheres entre 15 e 24 anos, o que é uma fração da média nacional combinada de ambos os sexos, de 67,7%, para a mesma faixa etária - também é um reflexo de uma sociedade que não vê necessidade de investir nas suas filhas.

Os cinco piores distritos para se nascer mulher na Índia ficam todas nas áreas rurais do norte do país, regiões repletas de problemas econômicos, totalmente dependentes da agricultura e carentes de infra-estrutura básica.

A mudança é lenta, diz Subrahmanian, da Unicef.

"É impossível que esses locais não mudem. Mas o acompanhamento na tendência geral não está ocorrendo de forma rápida".

Juganti Prasadi diz que teria feio um aborto caso tivesse acesso a exames pré-natais para a identificação do sexo da criança.

"O meu marido costumava ficar muito bravo e me perguntava: 'O que eu vou fazer com três filhas?'. Ele chegou a falar em vendê-las", conta Prasadi em meio ao silêncio rural, enquanto um sapinho salta sobre o chão de terra da sua choupana.

"Se a minha última criança tivesse sido um menino, o pai teria nos sustentado", diz ela. "Mas, agora, ele não se importa mais. O fato é óbvio: as meninas são uma maldição".

Tradução: UOL
Boris-D
 
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Re: o pior lugar para se nascer mulher

Mensagempor Magux » 29 Dez 2007, 16:50

Realmente nem tudo são flores... A mudança cultural de um lugar pra outro, a diferença de paradigma é imensa. Imagina o jornla daquela região dizendo que existem lugares onde a filha é tão amada quanto o filho, Eles ficariam chocados, ou achariam um absurdo.

E quem está certo nessa história toda? Desafio qualquer um a distanciar-se a tal ponto para uma análise séria
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Magux
 
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